segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Filhos consumistas: o que os pais estão fazendo para mudar isso?



Basta passearmos nos Shoppings para nos depararmos com crianças e adolescentes consumindo mais do que gente grande. Os lojistas e o mercado em geral sabem disso, e o apelo através das mídias contribuem para acelerar o hábito de consumo dos menores. Nos supermercados, a situação é similar. Carrinhos lotados de produtos supérfluos, escolhidos pelos filhos e filhas que acompanham os seus pais. Se prestarmos atenção mais detalhada, observaremos crianças autoritárias, determinando a marca do produto e a quantidade que se deve levar para a casa. Contrariados, provocam cenas que os pais preferem evitar.  Estamos assim diante de uma geração de consumidores vorazes. Dessa forma, uma pergunta se faz necessário: quem são os responsáveis pelas crianças e adolescentes? Eles não consomem sozinhos, não possuem renda e por isso não podem comprar o que desejam.
As crianças pedem o que querem aos pais, porque é natural pedir. O custo é então repassado aos pais que assumem o ônus desses pedidos sem educar devidamente os filhos e filhas na prática do consumismo. Essa prática acaba se tornando um vício e como tal vai crescendo de maneira descontrolada. Na realidade, os pais, de maneira geral, têm um outro vício: o de não educar os desejos dos filhos, separando-os das necessidades reais. Um “agora não” ou “você não está precisando disso agora”, não educa. Dizer: “depois eu compro”, não estará educando também, mas postergando, empurrando para depois. O que se deve dizer então? Diga não! Se insistir, complete a frase: se continuar pedindo, você irá me esperar lá fora da loja! ” Outra coisa importante: pais precisam combinar entre si as premissas da educação e não postergar situações. O pai agir de um jeito e a mãe de outro, piora tudo e a criança ou mesmo o adolescente encontra aí uma fragilidade que o torna um manipulador.
Sendo assim, se os pais irão atender aos filhos porque não suportam insistência, ou para resolver rapidinho um conflito estabelecido pela negativa dada, aí eles estão deixando de ser educadores. Qual a consequência? Seus filhos estarão deixando de valorizar o que tem e passando a ser consumidores compulsivos e infelizes. Há, sim, a possibilidade de não sermos felizes, mesmo tendo tudo o que desejamos. Esse é o grande desafio nosso como pais e mães educadores. Comprar para satisfazer não as necessidades. O exagero pode, sim, provocar a ideia de que é fácil ter as coisas e por isso sempre vão querer mais. Vários pares de tênis de marca, calças etc, sem que usem de fato, acabam sendo doados, o que pode criar ainda mais a sensação de supérfluo e desnecessário, mas importante pela única razão de querer ter algo que o tenha oportunizado momentos de satisfação na hora da compra. É aí que está o perigo.   Não há nenhum absurdo em comprarmos para os nossos filhos, vê-los contentes e juntos compartilharmos alegria. Apenas precisamos fazer isso com regras bem estabelecidas e fazendo-os entender o valor daquele presente. Também cabe a disciplina, o “não” dito de maneira definitiva e a reflexão sobre a real necessidade daquela compra. Eu consegui milagre com os meus filhos. Confesso que andei meio negligente, certo de que “se posso dar, então darei”. No entanto, foram eles mesmos que me mostraram que o caminho não estava legal. Eles confessaram a mim que uma vida sem gastos absurdos com futilidades, poderia ser mais interessante. Imagine! Eu que pensava que dando a eles tudo o que não tive, estaria dando a felicidade que cheguei a pensar que na vida eu um dia não tivesse conhecido. Eles me educaram e me levaram a uma reflexão tão significativa sobre consumismo que resolvi partilhar com vocês essa experiência educativa. O que eu tinha como base sempre foi o amor e o “não”, sempre posto quando não podia ter dado algo que achavam necessitar. Foi essa base que permitiu a eles dizer para mim que desejavam uma vida “gostosa”, mas sem consumismos exagerados. Estamos vivendo, assim, em um clima de “minimizar” o consumo, sem que haja perda na qualidade cultural, gastronômica e de lazer. O que dimensionamos foi o exagero, aquele que enche os armários de coisas que nem se quer utilizamos.


A interação com crianças: como conhecê-las melhor?



Recentemente, aproveitei uma folga para colocar a minha leitura em dia. Tenho procurado aprender mais sobre as pessoas e como posso entende-las para melhor poder atuar na Educação. Terminei um livro que havia começado a algum tempo. Retomei alguns capítulos e finalmente terminei de ler a obra. Trata-se do livro Decifrar Pessoas – Como entender e prever o comportamento humano, de Jo-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella, editora Alegro. O livro todo é muito interessante e bastante útil, mas, me chamou muito a atenção o capítulo onde os autores trataram das crianças. Tão interessante foi, que tomei a liberdade de compartilhar um pouco do que aprendi com você. A ideia aqui, é ajuda-lo no sentido de conhecer um pouco mais as suas crianças, a partir de uma interação mais refinada e assim ser mais fácil a compreensão do mundo deles.
Todos sabemos que as crianças chamam a atenção a seu próprio modo. Algumas pessoas têm muita facilidade com elas, enquanto outras, mesmo que sejam pais ou parentes mais próximos, encontram muitas dificuldades em se comunicar com elas. A interação com as crianças, a forma adequada de fazer essa interação, é o que pode definir o comportamento das mesmas, bem como ser a ferramenta que nos dará uma maior compreensão do mundo de nossos filhos. Na maioria das vezes, saber lidar com as crianças, é um traço não genético, mas uma habilidade adquirida. Portanto, precisamos conhecer melhor os nossos filhos, para que possamos então garantirmos uma interação saudável. O primeiro erro nosso, é acreditar que o comportamento de nossos filhos, é inerente a um traço de personalidade imutável. Não é verdade. Podemos sim mudar o outro. A educação é isso: moldar, acomodar, inserir e tornar o outro socialmente aceito. Se acharmos que está tudo bem com o comportamento de nossos filhos porque herdaram isso de alguém da família, é admitir que não há o que se fazer. Aí sim, é que a situação foge ao nosso controle. Por isso, tenho dito que somente conhecendo mesmo as nossas crianças em casa e na escola, é que poderemos ter o controle de situações e o domínio saudável de uma relação, onde a criança busca segurança e confiança.
Crianças manhosas, dramáticas e manipuladoras em casa, serão assim também na escola, no condomínio em um encontro de família, igreja e onde mais ela conviver. Se deixarmos ela fazer tudo em casa, estamos também dando a ela um salvo conduto para que façam em outros ambientes o que acham que podem fazer. Olhe o problema... em outros ambientes, as regras sociais e de convívio obviamente são outras e, claro, estamos sujeitos a respeitá-las. A perfeita interação de nossos filhos no mundo em que vivem, depende da forma como, em casa, nós colocamos as regras. Afinal, a família é uma instituição educadora e, é sim a primeira escola de nossos filhos fundamental para a formação de cada um! Como se diz: “ educamos para o mundo” e o mundo não é nosso lar. Por isso vai a regra: disciplinar em casa, é ensinar para o mundo. Nós, pais, precisamos dessa sensibilidade. Precisamos de inserir os nossos filhos em nossos jantares, de forma a aprenderem a se comportar diante dos convidados, respeitando as regras sociais e comportamentais. Precisamos de levar os nossos filhos em nossas viagens e festas, ensinando-os a terem uma conduta de acordo com o que cada ambiente e evento exige de cada um de nós. Precisamos inserir os nossos filhos em uma reunião de família, onde se está discutindo o orçamento doméstico, pois precisam saber como deverão conter os desejos de consumo para não ficarem exigindo o que não estamos podendo dar. Tudo isso é uma maneira de conhecermos mais os nossos filhos e também deixá-los com parcelas de responsabilidade. Essa ação educativa, não só nos ajuda a decifrar os nossos filhos, mas de maneira positiva, inseri-los na realidade em que vivem. Cientes e convencidos, passam a fazer uma leitura diferente da vida, de seus desejos e de suas responsabilidades. Que maravilha! Fácil? Não, nada fácil. Formar pessoas é sem dúvidas o maior desafio da família e da escola. Tentamos acertar sempre, aprendendo com os erros e equilibrando as ações. O que não podemos fazer, é deixar para lá, esperando que o tempo dê jeito. Não resolve e pode até piorar. O que resolve é o cuidado, a atenção e os esforços conjuntos da família e da escola. Estamos juntos!


O mercado editorial mundial e seus paradigmas diante do dilema: livros impressos X livros digitais



No mercado brasileiro de impressão de livros, já não existe mais um temor em relação à produção de livros digitais. Dessa forma, há hoje o entendimento de que a leitura digital não leva grande parte dos leitores de livros impressos, como aconteceu com o mercado da música. O que evidencia esse fato são os sinais de estagnação que a venda de livros digitais já nos mostra nos EUA e na Europa.
Nos primeiros nove meses de 2015 e início de 2016, as vendas de e-book (livros eletrônicos que podem ser lidos em e-readers, tablets, PCs ou Smartphones) caíram cerca de 11%. No Brasil, embora o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), não apresente dados oficiais sobre a venda de livros digitais, temos registro que, de fato, nunca houve um crescimento exponencial dessa modalidade. A Amazon, site de multimídias, que domina esse mercado, não revela números, mas se pode dizer que vivemos uma estagnação aqui também mesmo diante desse cenário, os livros impressos estão mostrando uma resiliência e sobrevivendo a onda de digitalização de textos.
Concomitante a isso, a gigante editorial Hachette registra que a queda de consumo de e-books caiu na mesma proporção que aumentou a produção de livros impressos nos últimos 2 anos nos EUA. Hoje estima-se que, nos EUA, o patamar do livro digital seja entre 20% a 25% DO MERCADO EDITORIAL e, no Brasil, seja na ordem de 3% a 5% e já consolidado, ou seja, é basicamente a fatia de mercado com atração para essa plataforma de leitura. Todavia, vale destacar aqui, que esse mercado editorial digital tem atraído muito os livros digitais de autopublicação já que o próprio autor publica o seu livro sem passar por um conselho editorial ou editora. Hoje, na AMAZON Brasil, de cada 100 livros vendidos semanalmente, cerca de 30 livros são autopublicações.
Com todo esse “bum”, cabe ressaltar que o período de maior expansão dessa modalidade digital, no Brasil, foi mesmo nos anos de 2014 e 2015, quando a AMAZON se posicionou no mercado editorial brasileiro. Contudo, o livro impresso sobreviveu, mesmo em um país onde a maioria das pessoas não têm o hábito de ler. Além disso, os leitores não migraram totalmente para a plataforma digital, mas passaram a consumir os dois modelos de editoração. Há casos em que se recorre aos títulos digitais quando no mercado de impressos, o título procurado esteja esgotado.
Quando se fala em mercado editorial mundial, o Brasil ocupa o 9º lugar. Isso ocorre não exatamente porque lemos, mas pelo fato de o governo, através do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), distribuir milhares de obras de literatura, de pesquisa e de referência para promover o acesso à cultura e o incentivo à leitura nas escolas públicas. Desconsiderando a participação do governo nesse mercado, a situação é outra. Em nosso país, apenas 15% da população compra livros, ou seja, 85% da população não compra nenhum livro. Portanto, precisamos, sim; mudar urgentemente esse cenário, uma vez que os maiores leitores brasileiros estão na faixa etária de 5 a 17 anos. Alguns leem devido ao incentivo da escola e outros, porque se sentem “obrigados” a ler.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Forme o seu filho para o mundo do século XXI



Vivemos em um mundo em que necessitamos de acompanhar as mudanças e nos adequarmos aos novos tempos. Nos prender as tradições, a uma cultura conservadora na educação de nossos filhos, pode ser um grande problema para eles no futuro. Não estou sugerindo o “vale tudo” e muito menos a libertinagem que se vê por aí. O que eu proponho é uma educação sintonizada com as novas perspectivas e realidade do mundo contemporâneo.
O mundo exige hoje pessoas resilientes, capazes de superarem pré-conceitos e trabalharem de maneira cooperativa.  É preciso, hoje, que as pessoas mobilizem um conjunto de competências que estão fora do antigo modelo de educação e que, por isso, nem todos possuem. Esse modelo individualista ainda existente na educação escolar e familiar, dos tempos mais antigos, não existe mais. Ter bons conhecimentos técnicos, já não é o que define um emprego. É preciso desenvolver a inteligência emocional e social, ou seja, saber lidar com as emoções: alegrias, frustrações, motivação, aborrecimento, prazer, entre outros sentimentos que afloram ao longo do dia. Essa competência de saber lhe dar com as emoções tem sido o que garante um bom desempenho profissional, com as pessoas e nos relacionamentos pessoais e íntimos de cada um de nós.
No mundo atual, e com certeza mais ainda no mundo que se desenha para os nossos filhos, as pessoas de sucesso serão aquelas que souberem entender os sentimentos, as expectativas e as dificuldades dos outros. Aceitar as diferenças, interagir de modo respeitoso e adequado, negociando pontos de vista e promovendo harmonia. Esses serão os vitoriosos. Esse aprendizado, a aquisição dessas habilidades e competências não depende só da escola. É na família que começamos a ensinar aos nossos filhos a lidar com as emoções e a respeitar o outro. A ser colaborativo e sensível ao ambiente em que vive e com quem convive. A escola complementa. Por exemplo, estaremos desenvolvendo, a partir do retorno de nosso recesso, com todos os alunos de nossa Escola um projeto de valores que tem por objetivo despertar em todos essa sensibilidade. O Respeito ao outro, a si, às diferenças etc., mas é preciso que em casa, as crianças e os adolescentes sintam também essa acolhida.
Muitos diretores de empresas importantes contam que, na maior parte das vezes, contratam as pessoas pelo currículo e acabam demitindo pelo comportamento inadequado na relação com os outros. Assim, trabalhar e viver bem exige mesmo mobilizar valores que não são só as competências técnicas, adquiridas na formação em universidades e cursos de pós-graduação. Está além disso... por isso, o ambiente mais favorável para o desenvolvimento de seu filho ou filha é: o amoroso, o respeitoso e o democrático. Mostre aos seus filhos, a partir de palavras e atitudes, que eles são queridos e que a relação em família é afetuosa. Permita que todos possam se expressar, mesmo quando as opiniões forem divergentes. Garanta que cada um seja respeitado em família e ouça sempre o que os filhos têm a dizer, nas decisões em família. Dessa forma, os seus filhos aprenderão a lidar com as próprias emoções e a conviver com os outros de maneira respeitosa. Para que tudo possa dar certo, nessa ação de construção de pessoas inteligentes emocionalmente, não é necessário bater nos filhos. Castigos físicos não resolvem. Vale mesmo é estimular as atividades cooperativas, inclusive nas tarefas domésticas. Deixar de lado essa vivência colonial, em que a secretária é quem cuida de tudo em casa, ajudará os seus filhos em sua formação colaborativa. Arrumar o próprio quarto é um princípio importante. Respeitar o espaço do irmão e as diferenças em relação aos trabalhadores da casa também é importante.  Algo que jamais devemos fazer, é estressar em casa com os filhos e ceder para os filhos na hora da pirraça. Tudo isso acontece e a nossa tranquilidade será o elemento necessário para que tudo acabe bem.
Para você conhecer mais sobre esse tema, sugiro a leitura do livro de Andrea Ramal, Filhos Bem-Sucedidos – Sete maneiras de ajudar seu filho a se realizar na Escola e na vida, Editora Sextante. Acho que você irá adorar essa leitura.
Aproveito para desejar a todos um ótimo final de semestre.
Após o breve recesso, estaremos de volta em nossa nobre missão de formar seres humanos para a vida.

Estamos juntos!


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Estou decepcionado com você



Certamente essa frase, quando dita aos nossos filhos, reflete apenas o momento de ira e de raiva do adulto. Contudo, se falada com frequência, levará a criança acreditar que ela é o que os pais não desejaram, provocando um sentimento de rejeição. Uma sensação de inadequação e com certeza de incompetência como pessoa. Não podemos deixar de lembrar, que as crianças, de maneira geral, passam grande parte dos seus dias tentando mostrar aos pais as suas habilidades e adequações. O tempo todo, as crianças querem a aprovação dos pais, seja no esporte, na escola ou mesmo nos desafios das brincadeiras. Se ela tem a sensação de que está provocando decepção nos pais, certamente o que as tomam é um forte sentimento de incapacidade. Isso a perseguirá o resto de suas vidas e, com absoluta certeza, gerará frustações enormes. Eu, particularmente, levei muito tempo para ter de parte de meu pai um reconhecimento por minhas conquistas, o que certamente impactou em minha vida.
Dizer a um filho ou filha que está muito decepcionado com ele ou com ela, passa a ideia de uma quebra de confiança no relacionamento. A criança terá a sensação da existência de um enorme abismo na relação amorosa com os pais. Complicado, né? É sim! Imagine você dizendo a seu filho que está decepcionado com as notas ruins na escola, que irá tirá-lo da escola. Dá para imaginar a terrível sensação de incapacidade? Não se motiva dessa forma, mas penaliza. Pior, destruindo e não ajudando a reconstrução de segurança. Como essa criança encontrará forças para não mais lhe decepcionar?  
Um sentimento de rejeição se instalará na mente dessa criança e ela irá acreditar que estragou o bom relacionamento com os pais e, claro, sentirá culpa por não ter correspondido às expectativas dos mesmos.
Você já disse essa frase ao seu filho ou filha? Foi repetidamente? Ora, uma vez ou outra, não é tão grave. Mas, o que devo dizer? Com absoluta convicção, diga sempre que não concorda com o que ele ou ela está fazendo.  Peça que avalie o que está fazendo e mostre as possíveis consequências. Afirme o seu compromisso de estar junto nos momentos de erro. Procure resgatar em seu filho, o senso de responsabilidade e o sentimento de que o que está sendo feito não é aceitável. A criança saberá que errou e que está sendo chamada a uma reflexão e, acima de tudo, não está sendo rejeitada, mas amada. Esse é o melhor sentimento, a sensação mais agradável possível e que com absoluta certeza irá gerar um sentimento de segurança no sentido de ser amada e conduzida. Criança precisa sentir-se conduzida e amada.
Certa vez, em um momento de atendimento, na anamnese, de maneira surpreendente o analisando me disse: “Estou aqui porque o meu pai está decepcionado comigo, senão eu estaria brincando com os meus primos”. De imediato percebi que estar ali comigo representava um castigo, punição pelo fato de ele ter decepcionado o pai. Nesse momento, pude perceber a sua maior angústia: a rejeição. Por isso, todo cuidado com o que dizemos aos filhos é essencial, principalmente nessa frase tão utilizada e tão pesada. Falamos por pensarmos que há nela uma força de resolver o problema, no sentido de revelar que o que está sendo feito não condiz com o que planejamos ou esperamos. Contudo para o outro, sendo ele uma criança, aí é que o peso ainda é muito mais significativo. Pense nisso!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Educação e a contemporaneidade




A Educação contemporânea tem sido marcada por profundas modificações ocorridas nos campos econômico, científico e cultural. Se considerarmos os avanços tecnológicos e a forma de interação e comunicação entre crianças e jovens, aí diria até que as mudanças são significativas em todo mundo.
Na semana passada, em São Paulo, participei da Bett Educar Brasil, uma enorme feira de educação. Participei de várias palestras com educadores da Finlândia e Cingapura, que nos revelaram o quanto de mudanças significativas acontecem na educação mundial.
Há um novo conceito de educação que certamente choca-se com o modelo tradicional que nós conhecemos aqui. Não me refiro apenas a introdução de recursos tecnológicos na sala de aula, mas principalmente na mudança significativa de valores e paradigmas educacionais. Isso no sentido metodológico, mas também na organização espacial da escola e das salas de aula. Esse formato conhecido por nós, do professor que ensina e o aluno aprende, está sendo substituído pelo modelo em que o professor instiga e os alunos aprendem e ensinam. O professor vem deixando de ser um palestrante e passando a ser um orientador, um mediador. Os alunos estão sendo provocados no sentido de serem mais ativos e menos passivos nesse processo.
Se pensarmos que as crianças e jovens de hoje não conseguem mais ficar sentados e ouvindo por muito tempo, faz sentido repensarmos as estratégias de ensinar. Precisamos de mais movimento e provocações, além é claro de utilização de recursos tecnológicos de acordo com a linguagem desse mundo contemporâneo, conectando os nossos alunos no universo global em que vivem. Estamos certos disso e evoluindo gradativamente para isso. A escola, enquanto instituição transformadora, necessita de fazer esse papel inovador e está fazendo. Talvez por isso, vivemos uma certa onda de inconformismo de algumas famílias que atreladas a conceitos antigos, acham que a escola tem perdido a mão. Reclamam sempre dos passos dados no sentido das mudanças necessárias e se apegam ao apelo: “ Na minha época, a gente...” Pois é, essa época foi sua, foi minha, mas não é a época das gerações contemporâneas. A escola de hoje é certamente para a geração de hoje. Por isso mesmo, ela tem que se adequar aos apelos do presente e continuar de olho no futuro, caso contrário, não consegue cumprir o papel de instituição transformadora. Essa entrega de contemporaneidade é o que determina a sua sobrevivência enquanto instituição para o futuro.
Como sabemos que essa “Geração Z” já nasceu segurando um smartphone, a escola de hoje precisa entender melhor as demandas dessa nova gente. A pergunta simples, mas de solução complexa é: Como ajudá-los a aprender mais?  Certamente não com os métodos e estratégias do passado. Precisamos de aulas voltadas para o protagonismo dos alunos e precisamos de inovar na metodologia e na didática também. Estamos certos disso.
A Profª Marjo Kyllömen, Secretária de Educação de Helsingue, Finlândia, em sua palestra para os diretores do grupo SEB, foi enfática ao afirmar que a única saída para a qualidade educacional dos alunos é a inovação na metodologia e na prática relacional dos educadores com seus alunos. Não se trata aqui de relação social amistosa, mas sim de mudança de comportamento em relação aos atores do teatro da educação. Os professores precisam garantir aos alunos um ambiente de aprendizagem, onde a colaboração, o movimento e o interesse dos alunos seja o foco. O protagonismo dos alunos garantirá a aprendizagem de qualidade. No passado, o professor era o colecionador de informações. Hoje, a conexão do mundo contemporâneo abre perspectivas ilimitadas no que tange fonte de conhecimento. Os saberes estão nas nuvens. O professor tem que orientar e despertar, mas o aluno é quem deve buscar o conhecimento.
Aquela escola pautada em pilares da disciplina rígida e da rotina pedagógica engessada, não atende às demandas educativas das gerações contemporâneas. O próprio conceito de disciplina e valores também se modernizam. As roupas, o corte de cabelo, os adereços, as múltiplas expressões de linguagem devem também fazer parte desse ambiente educativo. Tudo com racionalidade e dentro de normas de convivências, mas ainda assim sem a rigidez de um quartel. A escola é o espaço das manifestações humanas. Não é na escola que as crianças e jovens vivem grande parte de suas vidas? É por isso mesmo que a escola precisa buscar uma identidade com os alunos de seu tempo. Muito interessante é ver que, no segmento de educação infantil, toda essa leveza e movimento que se busca sempre existiram. O que sentimos na escola, é que na proporção que as crianças vão crescendo, mudando de segmento, ela vai perdendo a identidade com o espaço escolar. A escola vai se distanciando, tornando-se não mais estimulante. Torna-se chata na verdade. Aí, instala-se um clima de pouca identidade e interesse. Precisamos mudar isso ou teremos sempre uma escola distante de seus alunos. Esse desafio é mundial e o mundo está discutindo a necessidade do reposicionamento da escola como instituição de ensino e transformação. Saliento que estamos atentos e comprometidos com uma educação inovadora, responsável e criativa.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

A adolescência tardia



Um final de semana desses, encontrei, quando passeava na orla da Ponta verde, um amigo que também é pai de um aluno de nossa Escola. Conversamos demoradamente sobre o momento atual do país, a situação política e econômica em que vivemos e o reflexo disso no humor das pessoas.
Sem compromisso, observamos que o grau de descontentamento das pessoas é tão grande, que todos estamos muito irritados. Perdemos a paciência com muita facilidade e toda essa irritação tem provocado um enorme estresse até mesmo nas relações interpessoais.
Mas, por que estou lhe participando isso?  Ocorre que a nossa conversa foi para a experiência dos filhos, alunos, escola, crise da adolescência...
O referido amigo mostrou-se preocupado com os sinais da adolescência no filho. O pior, foi que se assustou quando eu disse que há hoje, entre os educadores e especialistas, a constatação de que a adolescência é um comportamento que está se prolongando e muito. Não é um período entre a puberdade e a idade de 18 anos como se classificou um dia. A adolescência está mais demorada, os filhos estão cada vez mais imaturos e permanecendo por mais tempo em casa. Surpreso, ele me pediu para escrever algo sobre o tema. Assim, aqui eu faço um breve ensaio a respeito.
A psicanálise tem nos ensinado que uma das tendências mais marcantes da pós-modernidade é a efemeridade, a fragmentação, a descartabilidade e a inexistência de padrão dominante. Essa pós-modernidade é, aos olhos dos especialistas, uma sociedade centrada no lazer, na aparência, na imagem, no consumo, além do desinvestimento nas relações vinculares. (Vaitsman – 1194).
Há em nossa sociedade pós-moderna a vivência de um sentimento de descontinuidade do ser na medida em que se busca essencialmente valores externos e não o viver criativo. Certamente, nesse contexto, o “amadurecimento” afetivo e social dos jovens em formação, torna-se perene, atrasado, de forma que ainda é comum encontrarmos muitos jovens aos 20 e 30 anos, com precária subjetividade. Quer dizer, ainda “imaturos”, sem a construção de um eu e sem as respostas que são essenciais para o entendimento do mundo. Na verdade, é comum ainda a pergunta: “quem eu sou?”
O que temos hoje é o surgimento de uma nova geração entre as tantas que já foram denominadas. Especialistas a classificam como a “Geração Canguru”. Ela se caracteriza pela experiência de demora dos filhos em sair de casa. Há jovens, com idade entre 25 anos e 34 anos, que preferem ficar na casa dos pais, mesmo já estando no mercado de trabalho. O que eles não querem, é perder a segurança da casa dos pais, enquanto ainda estão se preparando mais para o exigente mercado de trabalho. Fazer mestrado, doutorado, MBA, cursos de especialização e conquistar a desejada segurança externa tem segurado os filhos em casa. Também a dificuldade de se colocarem no mercado de trabalho, os altos custos da independência e o conforto que encontram são fatores de fixação por mais tempo na casa dos pais. Esse comportamento torna-os mais “garotões” e, por isso, aparentemente menos responsáveis. Se pensarmos que outro dia, os jovens (já com 18 anos) estavam prontos para iniciar a vida independente. Aí é que ficamos preocupados com o comportamento de nossos filhos. Eu mesmo, sou de uma geração que o aniversário de 14 anos era um marco de maturidade, que nos colocava em um patamar de “homenzinhos”, até nas roupas mesmo. Hoje, os jovens da “Geração Canguru” até têm preparo intelectual, mas são carentes de preparo emocional para saírem de casa.
Mas de onde vem isso? Ora, vem do modelo de sociedade que temos aí construído nessa dita pós-modernidade. Jovens que cresceram sob a proteção exagerada dos pais, com medo da violência das cidades grandes, compensando-os com presentes devido à ausência deles, que se separam a toda hora ou que tem que trabalhar e muito para garantir o sustento dos filhos. São resultado da superproteção de pais na escola, no condomínio, nos ambientes sociais. Ficam em casa, presos aos jogos eletrônicos que desenvolvem os neurônios, mas dificultam o desenvolvimento da inteligência emocional e a capacidade de relacionamento, resolução de conflitos, de desafios que vencidos geram confiança, como ganhar uma corrida, um jogo de futebol ou um queimado. Falta-lhes ter vencido o medo de subir em uma árvore, correr, cair e se curar com a própria saliva as escoriações expostas. Esse modelo atual de sociedade está transformando os nossos jovens em pessoas que encontram dificuldades em enfrentar o mundo. Sabemos que ele não anda fácil. Tenho os meus filhos na adolescência e sei o quanto tem sido difícil dar a eles essas oportunidades. Contudo eu me esforço. Os problemas deles com os colegas, com as dificuldades na escola, precisam ser resolvidos por eles. Não interfiro. Questões de relacionamentos etc, são por eles resolvidas. Posso e devo orientá-los, mas não interferir. A escolha profissional que estão fazendo partiu de cada um e eu apoio e incentivo. Se estão com dificuldades em algo, oriento-os no sentido de enfrentarem, mas não os protejo. Jamais! Não serei eterno e eles crescerão.
O que precisamos é de encontrarmos um meio termo nessa questão. Deixar de lado a superproteção já pode ser um bom caminho. Despertar neles o desejo do desafio também, mas acima de tudo, levá-los a entender que precisam crescer para o mundo. Tem sido muito confortável ficar na casa dos pais, mas eles precisam entender a necessidade da construção de seus próprios mundos. Caso contrário, serão eternos adolescentes, dependentes de nosso conforto e sem a independência necessária para a realização na vida.
Precisamos estar atentos à atualidade, que é marcada por mudanças subjetivas que acabam por influenciar as relações entre os sujeitos, nas quais os ideais presentes, que serviam de balizadores, já não existem mais. Os limites não estão muito claros, ou talvez, já não existam mais. É o tempo da flexibilidade e da fluidez das relações, lugar de vínculos enfraquecidos, como nos ensina Bauman (2004). O sujeito enfraquecido, o “eu” não formatado, acaba desaguando crianças que foram superprotegidas e por isso não conseguiram se encontrar, para fazer a passagem para a maturidade. Esbarraram na adolescência e inconscientemente prolongaram essa experiência pelo conforto de não ter tido forças para enfrentar a vida. Não podemos aceitar isso para os nossos filhos e filhas.