sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O comportamento do aluno e o papel da escola




A escola, como instituição de ensino, enxerga o aluno como aquele que está nela para aprender. Não só para aprender, mas também para conviver com as regras e a dinâmica educadora da instituição. Tudo isso é verdade, mas não podemos esquecer que o aluno é um ser humano, “um livro escrito” que chega à escola. Mais do que isso, muitas vezes esse aluno vem de uma família que, por um motivo ou outro, transfere para a escola mais do que realmente a escola tem por objetivo fazer.
O que sabemos é que a escola representa as primeiras experiências de socialização da criança. É nesse universo que ela se manifesta, expressa-se e realiza-se. Acredito que é no mundo escolar que ela se revela. Certamente por isso, muitas vezes, os familiares são chamados a confrontar comportamentos diferentes de seus filhos em casa e na escola. “Em casa ele é diferente daqui”, me disse certa vez uma mãe em um atendimento. De fato, é na escola que a criança se manifesta, pois, além de ter espaço para as suas linguagens, ela está desprovida da segurança do lar e da afetividade dos familiares. Na escola, mesmo que cuidada e protegida, ela se sente fora de casa e, portanto, responsável por si. Chamamos isso de autonomia. Na escola, ela vive a sua autonomia, o que lhe oportunizará crescimento. É na escola que encontrará o limite e será colocada diante de regras, normas de condutas, convívio interpessoal e autoridade dos educadores.
A escola, então, não pode somente ser vista como um centro de aprendizagem de conteúdos, mas um espaço também dedicado à formação do caráter do indivíduo. É papel da escola como instituição educativa adequar as pessoas ao convívio social e também despertar no educando o sentido de disciplina e organização tão necessário ao bom relacionamento social. O psicanalista inglês Winnicott nos ensina que onde existir uma criança ou um adolescente é necessário que haja um adulto para confrontá-lo. O confronto aqui é no sentido disciplinador.  Trata-se de contrariar as escolhas inadequadas que aqueles que não têm maturidade fazem. Assim, o papel da escola no que tange ao comportamento dos alunos é ensinar e desenvolver no aluno a percepção de respeito a si mesmo e ao outro, a noção de responsabilidade social e cidadania. Cabe à Escola também ensinar a hierarquia e o respeito às regras. É papel da escola desenvolver este sentimento entre todos da comunidade estudantil.
É papel da escola ainda criar este espaço de acolhimento e reflexão, que promova o desenvolvimento da capacidade de aprender. No caso, não só aprender conteúdos do quadro curricular, mas aprender as regras da vida, o jogo da convivência e o desenvolvimento da inteligência emocional.
Nessa breve reflexão que faço, reservo-me o direito de lembrar a todos que a boa escola não se permite deixar se perder quanto ao respeito à hierarquia. O sistema de igualdade de direitos não é incompatível com o respeito às hierarquias. Este estado de confusão abre espaço para a desorganização e falta de limites. É importante sim a hierarquia, a organização e a disciplina. A criança necessita de adultos que acolham as suas ambivalências e lhe deem algo diferente para ela confrontar e fazer a leitura do que é certo e do que é errado. Nós aceitamos esse desafio, respeitando as individualidades e as múltiplas maneiras das crianças se manifestarem.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

As boas maneiras de cultivar o relacionamento entre pais e filhos



Os pais têm na família um papel mais importante do que o de serem apenas adultos da casa. Não há dúvidas sobre a importância em estabelecer entre pais e filhos um ótimo relacionamento. Seria até redundante dizer que isso é essencial para o equilíbrio da família e a seguridade emocional das crianças. Cabe salientar também que este vínculo positivo entre pais e filhos ainda é muito mais impactante na vida do filho de que podemos imaginar. Pais envolvidos trazem benefícios positivos para os seus filhos que nenhuma outra pessoa é capaz de dar!
Lembro-me muito de minha relação com o meu pai. Mesmo que ela tenha tido uma grande influência em minha vida, o que mais guardo em minha lembrança é da ausência. Não uma ausência física, pois ele sempre estava presente, mas uma ausência na construção de um relacionamento comigo. Cobrava muito de mim e pouco demonstrava afeto ou confiança. Achava que essa era a fórmula para que eu crescesse forte e seguro. Certamente é o que ele desejava para mim, afinal eu sei que ele me amava. Ainda hoje, “ajusto” o descompasso de não ter tido na relação com o meu pai mais de cumplicidade e fraternidade. 
Como sempre procuramos encontrar dicas que possam nos ajudar na construção de nossas experiências, pensei em cinco dicas que julgo essenciais para que uma boa relação entre pai e filho esteja “amaciada”:
  • Estabeleça com seu filho uma linha de comunicação já em idade precoce. Dedique algum tempo a seu filho para saber como foi o dia dele e como ele está se sentindo naquele dia. A ideia aqui é estabelecer o hábito do diálogo. A conversa pavimenta a estrada do bom relacionamento; o silêncio constrói abismo nesse relacionamento;
  • Compartilhe com o seu filho um interesse comum. Tente encontrar uma “janela” para o seu filho. Se não gosta de esporte ou não tem um hobby, procure encontrar algo em comum que permita o estabelecimento de alguma intimidade. Algo que mostre confiança e pertencimento entre os dois;
  • Aproveite o tempo que está com o seu filho e compartilhe conhecimento. Fale de sua vida, de sua história e de seu passado. Mostre que, com você, as coisas também aconteceram e acontecem. Mostre a ele o que sabe fazer, o seu trabalho e os seus desafios;
  • Procure elogiar seu filho. O que lhe parece pouco pode ser o máximo dele. Incentive e valorize o que ele tem dado. Não se torne tão duro. Todo mundo precisa ser elogiado;
  • Não perca os momentos importantes na vida de seu filho. Assista às apresentações escolares, prestigie eventos e atividade esportiva de que ele participa. Vá à escola, mostre que você dá importância a ele. Veja como as coisas são... hoje me esforço para lembrar de meu pai me acompanhando em algo, e só me lembro de três momentos: um desfile de 7 de Setembro, quando eu tinha uns quatro anos de idade e de uma pescaria com ele quando eu tinha uns 11 anos de idade. Lembro-me também de uma viagem que fizemos juntos ao Nordeste, quando eu tinha 16 anos... Certamente eu gostaria de ter vivido mais experiências boas com meu pai!
Vamos lá! Tarefa para esse final de semana: conviver e compartilhar com os seus filhos. Você verá, Pai/Mãe, como é bom e o quanto a família será abençoada. Aproveite!


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Os nossos filhos de cada dia: quando chega a separação...


Sei que ninguém aguenta viver só, mas sei também que ninguém suporta viver mal, infeliz, sem conseguir se realizar, frustrado em seus sonhos e desejos. Antigamente, a consciência do dever era tão grande nas pessoas, que havia o consenso de que deveriam manter os votos do casamento, mesmo diante do desconforto de ter que viver ao lado de alguém que não mais significasse para o outro. Vi, ao longo de minha vida, muitos casamentos sendo mantidos apenas pela necessidade moral de levar até o fim o que havia se comprometido. Nesse caso, como ficavam os filhos? Eram espectadores das cenas de brigas, intolerância, severidade e total desencontro do casal. Sofriam com a apatia do pai que atribuiu à esposa o dever de administrar a casa e os filhos, enquanto ele trabalhava. Em casa, entendia ele que era o seu refúgio, lugar de descanso e, por isso, não queria o incômodo de lidar com as demandas dos filhos.
E as mulheres? Como mães dedicadas, focavam no lar e no cuidado dos filhos. Essa rotina cruel tirava-lhe o desejo pela vida. Pouco cuidava de si e só conseguiam apoio dos irmãos e amigas da Igreja. Mas, continuavam casadas, certas de que o destino havia reservado a elas aquela vida. Resignadas, buscavam na qualidade de mãe deixar o ambiente familiar arrumado. Refiro-me não apenas à arrumação doméstica, mas principalmente à do emocional das crianças. A anulavam-se, ocultavam os seus desejos esqueciam sua feminilidade. Colocavam como mãe e não como mulher. As crianças cresciam assim e demoravam a entender o ambiente. Não sabiam bem o que acontecia. Achavam que era assim mesmo, e que o pai era uma pessoa difícil, pois ser pai é ser exatamente aquilo que viam em seu pai.
Hoje, as coisas estão mudando e rapidamente. Quando o relacionamento não vai bem, o casal opta pela separação. De certa forma, já casam com essa condição: “Se não der certo, separa e parte para outro”. Tenho visto isso demais. Não há tempo para “disfarce” no relacionamento, e o que as pessoas querem hoje é a busca da felicidade, independente de qualquer coisa. Homens e mulheres podem até tentar salvar uma relação, mas não aceitam mais a conveniência de manter um casamento para que os filhos não sofram o impacto da separação. O que temos hoje são versões novas de casamento e de família que desafiam o modelo tradicional. Quando ocorre a separação, geralmente a mãe assume a guarda das crianças e o pai fica soltinho, com o compromisso apenas de proporcionar tudo o que as crianças gostam: passeios, mesada, restaurantes, festonhas e etc. As mães ficam com a guarda das crianças. Com elas, a rotina diária e os pesados compromissos. E as nossas crianças? Divididas! Não sabem o que pensar a respeito. Os pais resolvem se casar de novo e os filhos são colocados diante de um problemão: irmãos diferentes, relacionamento afetivo com o novo homem ou mulher em casa e o pai ou a mãe em outra casa, também constituindo outro núcleo. É muito para os adultos e certamente demais para os filhos.
Diante dessa nova realidade, como agir com os nossos filhos? Vamos lá...
1.    Os filhos se sentem amados pelo interesse que os pais demonstram mesmo não estando o dia todo com eles. Um telefonema diário, uma rápida visita duas vezes por semana e a participação na vida escolar dos filhos ajuda e muito;
2.    Fiquem atentos às solicitações dos filhos. Sejam rápidos em atendê-los. A hora que eles solicitam é a hora que estão necessitando;
3.    Relacionem-se amistosamente com o novo núcleo familiar de seus filhos.
Muito importante é entendermos que a separação é entre os cônjuges e que os filhos são para sempre em nossas vidas. Lembrem-se de que os filhos têm direito ao amor dos pais e a um lar acolhedor. Tal ambiente oportunizará segurança e tranquilidade. Procurem sempre o bem-senso e saibam que a felicidade é um estado de espírito construído.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

O que é uma paternidade atenta?



Em setembro, quando visitei minha mãe em nossa cidade natal, aproveitei para fazer compras de livros em um sebo. Por ser uma cidade universitária, Juiz de Fora possui várias livrarias e inúmeros sebos, que eu adoro frequentar. Deparei-me em um deles lá com uma preciosidade: Nossos Filhos, nossos mestres, de Myla e Jon Kabat-Zinn. Uma obra fantástica que nos inspira a descobrir como o convívio com os nossos filhos pode nos trazer alegrias diárias. Gostei muito de um capítulo cujo título estou utilizando aqui em meu ensaio, que tem como propósito compartilhar com você o pensamento de Myla e Jon. Jon é docente em uma faculdade de Medicina em Massachuetts e Myla, uma ativista atuante em uma organização de educação. O casal tem três filhos e na relação com eles é que resolveram mergulhar nesta questão.
A paternidade atenta nos convoca a despertar com uma nova consciência e uma nova intencionalidade para as possibilidades, os benefícios e os desafios da tarefa de criar filhos, não só como se o que fizemos fosse importante, mas também como se nosso engajamento consciente na educação de nossos filhos fosse virtualmente a coisa mais importante que pudéssemos estar fazendo, tanto para nossos filhos, quanto para nós mesmos. Você deve se perguntar o porquê que tenho sido recorrente nesse tema em meus artigos. Pois é, minha insistência se dá por estar percebendo que os pais têm tido muitas dificuldades na lida com os seus filhos. Por onde ando, percebo isso. Em um domingo, passeando com a família em um espaço maravilhoso, com direito a piscinas, área de lazer, animais e muito espaço ambientado para brincadeiras e descanso, vi um garoto de aproximadamente 7 anos de idade fazendo birra. Queria o que queria. Fiquei observando os pais... Sabe o que aconteceu? A criança se impôs, e os pais nem sequer tentaram gerir o problema e reverter a situação. Então, nossos filhos são nossos mestres. Se não tivermos a dedicação para educar, “seremos educados” por nossos filhos e, pior, na experiência de vida deles que é... nenhuma! O que é importante é dar a eles aquilo de que eles mais precisam a fim de crescerem e desabrocharem.
Na vida, enquanto procuramos criar nossos filhos e entender quem eles são, eles nos oferecerão muitos momentos felizes. Procurar entendê-los e não ceder para evitar o conflito é estarmos abrindo as janelas de oportunidades para conhecermos e também para que aprendamos com eles, aprofundando a nossa relação e testando os nossos limites e nossa capacidade de tolerância. Sei que ser pai e mãe é uma atividade desgastante também. Reconheço que nossos filhos muitas vezes nos pedem coisas que ninguém mais teria a coragem de pedir. Muito se dá pelo fato de que a nossa condição de pais e filhos nos deixa numa intimidade muito grande. Nesse processo, se estivermos dispostos, teremos a chance de nos vermos mais de perto também. As nossas emoções e reações são revelações do que se passa em nosso íntimo. Ao oportunizar às nossas crianças momentos de entrega e investigação do eu delas, estamos também tendo a oportunidade de darmos um mergulho em nossa condição de ser humano. Assim, estar atento aos filhos é também estar atento a nós mesmos.
De fato, ser atento aos nossos filhos é praticar um tipo de concentração, abertura e sabedoria que não só beneficia a criançada, mas faz um bem enorme para cada um de nós. Para escutar o desejo e as necessidades de nossos filhos, exige-se um silêncio em nosso interior, e é exatamente nessa quietude que estaremos mais preparados para enxergarmos além da nebulosidade. Assim sendo, consideremos o nosso trabalho de ser pai e ser mãe uma responsabilidade sagrada, que exige de nós entrega total. Sei que às vezes somos chamados a darmos muito de nós, mas hoje acredito plenamente que só nós, pais, é que podemos dar aos nossos filhos a garantia da felicidade e a sensação de plena segurança diante dos desafios da vida. Sei que em muitos momentos na relação com os nossos filhos, seremos produtos e portanto reprodutores de modelos. Seremos chamados a superar sentimentos adquiridos em nossa própria infância, mas sei que somente nós podemos ser o porto seguro de nossos filhos.
Deixemos de lado “padrões destrutivos” e “pesadelos de nossa infância”. Busquemos o equilíbrio na razão e o nosso alimento no amor. Atentos na educação de nossos filhos, teremos um espelho do que fomos em nossa infância. Teremos que ser sábios para praticar um “valor de educação”, em que o passado esteja presente, mas que não seja ele a única referência, o único modelo para os nossos filhos. Paternidade atenta nos garante um bom relacionamento com os filhos e nos convida a um reconhecimento maior de nossas emoções. Leiam o livro de Myla e Jon e certamente terão um novo olhar sobre os seus filhos.


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Autocontrole: As pessoas autocontroladas demais são limitadas.

Muito se tem falado sobre traços de personalidade das pessoas, principalmente das crianças e adolescentes. De certa forma, o nosso modelo de família, da religiosidade e da educação nos ensina que precisamos desenvolver o autocontrole. Isso é verdade. Não podemos extrapolar, expandir-nos, sem que tenhamos o cuidado de não nos expormos e também, é claro, não expormos o outro. Precisamos controlar os nossos impulsos, as emoções e principalmente ter autocontrole sobre o que pensamos dos outros e tudo mais. No entanto, devemos ficar alertas: “as pessoas controladas demais são excessivamente limitadas”. É verdade, pessoas com autocontrole apurado apresentam dificuldade em tomar decisões, podem adiar ou mesmo rejeitar o prazer nas coisas sem necessidade.
O pesquisador Jack Block, da Universidade da California argumenta que o autocontrole em demasia leva a pessoa a viver uma ética tão escrupulosa que se torna conservadora, compulsiva, ansiosa e reprimida. Pois é, muito autocontrole pode mesmo limitar as pessoas e tirá-las do caminho da felicidade. Devo ressaltar também que pesquisadores concluíram em um estudo na Nova Zelândia, que crianças com autocontrole na infância, apresentaram resultados positivos na fase adulta. Refiro-me aqui a um quadro de boa saúde, sucesso nas relações interpessoais e na vida amorosa. Então ter autocontrole não é ruim.
A ideia desse ensaio é o mesmo que debater a questão: devemos ensinar nossos filhos a ter u autocontrole? A resposta é sim! Devemos sim ensinar às nossas crianças o autocontrole. O cuidado que devemos ter é na dimensão deste autocontrole. Se for demais, torna-se um problema e se for de menos, outro problema, talvez pior. Autocontrole tem seus limites. Ele pode ser muito útil, mas não é relevante quando se trata de identificar quem pode vir a ser um grande inventor. Pode ser que o autocontrole não seja o “motivador ideal de sucesso”, mas apenas o que provoca um sucesso calculado, sem novidades ou surpresas. Autocontrole pode não ser surpreendente, apenas disciplinador. Determinação pode surpreender mais as pessoas do que o autocontrole. Que tal ensinarmos às nossas crianças a ter um autocontrole moderado e uma determinação severa?
A minha motivação em escrever este ensaio e compartilhar com você, leitor, esse meu aprendizado, vem da surpreendente leitura da obra “Uma questão de caráter” de Paul Tough. Essa obra publicada em 2012 pela Editora Intrísica do Rio de Janeiro, tem por objetivo fazer com que pais e educadores repensem o modelo tradicional de educação que impera em nosso padrão mental.  Paul Tough demonstra que não são as notas boas a melhor garantia de sucesso, mas sim a determinação, a curiosidade e a persistência e que essas qualidades podem ser ensinadas. Por isso, atente para o seguinte: nossas crianças necessitam sim de autocontrole. Contudo, não pode ser algo tão severo que as limite a sufoque, as deixe sem ação. Ao mesmo tempo, temos que ensiná-las a ter determinação. Não deixe que elas desanimem. Sejamos motivadores e não desanimadores. Ensine-as a enfrentar os problemas, a enxergar soluções e a planejar estratégias de vitória. Nossos filhos precisam saber enfrentar os desafios postos para que cresçam com autosuficiência e coragem. A escola é um grande centro de aprendizagem e o que ela nos ensina, não é apenas o currículo oficial. A escola vai além, pois ela ensina em todo o seu universo, aos nossos filhos a crescerem com autocontrole, determinação, caráter, curiosidade e persistência.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Educar tornou-se uma tarefa para poucos heróis!



Heróis, aqui, não são apenas os educadores, mas os pais também. É a verdade! Tem sido uma tarefa difícil convencer as nossas crianças e adolescentes que estudar é fundamental para a vida deles. Na minha época de criança, eu já sabia: ou estudava, ou não obteria qualquer êxito. O meu modelo de sucesso eram pessoas estudadas, bem preparadas. A escola era um desejo. Ela tinha um valor imensurável na vida das pessoas, pois ela representava a ponte, a possibilidade de aquisição da informação. Não tínhamos Internet, os jogadores de futebol não ganhavam fortunas. Meu referencial era o médico, o engenheiro, o advogado. Fui ser educador por escolha, poderia ter sido outra coisa. Hoje, o cenário é outro. É essa revolução que vivemos em nossa sociedade que colocou a educação como tarefa de heróis!
Vivemos a revolução digital. A velha e boa enciclopédia, adquirida geralmente na porta de casa, cedeu lugar a uma gama de dispositivos tecnológicos. O Google tornou-se a maior rede de informação e consulta. Muitas vezes, em sala de aula, alunos acessam o assunto que o professor está explorando, já com a informação posta, antes mesmo de ele terminar a aula. As notícias circulam nas redes sociais, em uma velocidade inacreditável. Os paradigmas mundiais e educacionais mudaram. Os valores estão mudando na mesma velocidade. Quase impossível querer que meus filhos vejam o mundo com os meus olhos. Eles exergam muito longe mesmo! Preconceitos estão sendo substituídos por entendimento; no lugar de visões racionárias povoam a mente de crianças e jovens adolescentes a aceitação e princípios que em minha época de adolescente eram considerados um pecado. Há, sim, uma revolução acontecendo. Entramos na era da informação, da globalização total e da tribalização. Vivemos a revolução digital, na era da informação, mas também, eu sei, na era da falta de reflexão.
Vivemos uma enorme revolução nos hábitos, nos costumes e na maneira de pensar, sentir e agir. O que sinto nesse momento é que a família, a escola e nós, educadores, ainda não percebemos o tamanho dessa revolução. Há impacto que ainda não medimos com precisão. A teoria das inteligências múltiplas de Haward Gardner e as descobertas da neurociência nos ensinam que o ser humano evolui e muito. Estamos em uma outra era e precisamos acompanhar. Será que poderemos mesmo continuar fugindo dos computadores e dos dispositivos? Nossas crianças navegam no mundo digital e mergulham em um mundo virtual. Nós temos que acompanhar. Estamos saudosistas e acreditamos que em uma hora qualquer tudo voltará a ser como antes, como teria sido em nossa época. Nada disso! Temos que acompanhar o mundo que aí está.
Precisamos rever o nosso papel como pais e educadores, para bem ensinar e educar os nossos filhos. Para tanto, temos que fazer parte dessa revolução e acreditar que nossos filhos, mesmo estando do nosso lado, vivem um outro mundo. A Escola está consciente de que é preciso “falar a linguagem” dessa tribo e aderir a revolução. É um movimento dinâmico, um processo que busca, enquanto caminho, ir ao encontro das crianças e dos adolescentes. Se resistirmos, se mantivermos o conservadorismo, iremos “de encontro a” e não “ao encontro de”. A família já começa a perceber isso e tenta se modernizar, se organizar, inovar e a buscar o convívio nos ambientes sociais onde se ventila o novo, a transformação. Acreditem: Nós somos heróis. Família e educadores, juntos, encontraremos o caminho e caminharemos de mãos dadas para que a nossa juventude seja acolhida, amada e compreendida nas suas múltiplas manifestações de existência e desejo. Devemos fazer isso, pois temos que participar dessa revolução para estarmos juntos com os nossos filhos. Vamos nos fortalecer, nos preparar, orientar nossas crianças e adolescentes, mas aceitar as mudanças do mundo. Somos heróis e estaremos juntos para que nossos filhos possam ser felizes.
Para isso, precisamos rever nossas crenças, nossas atitudes e, principalmente, o modo como educamos nossas crianças e jovens. É necessário encararmos a escola como uma instituição educativa que precisa de apoio, de respeito e da parceria das famílias. Nós, pais e educadores, devemos nos colocar de fato como heróis e fazer com que nossos filhos nos vejam assim. Estamos juntos, pois somos sim os poucos heróis que aceitam a tarefa de educar seres humanos.



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Educação dos filhos: missão difícil, mas possível.



Sou de uma família de quatro filhos e cresci escutando minha mãe dizer: “cada um é um”. Dizia muito também: “Filhos já nascem prontos, a gente só dá o acabamento”. É bem por aí. Educar é mesmo “polir”, “aparar” e dar o verniz que destacará a beleza que cada um traz em si. É por acreditar nisso que defendo que educar os filhos é um trabalho singular e pessoal. É um conjunto de atitudes que vem de nosso íntimo, por isso o modelo de outra pessoa de nada serve, nem mesmo quando ainda somos inexperientes. É preciso que cada um de nós encontre o seu estilo próprio de educar. E como se faz isso? Aprendendo com todas as fontes úteis que encontramos em nossa busca. É bom lembrar sempre que as atitudes educativas que tivemos ontem podem não surtir efeito hoje.
Quem opta por ter filhos está escolhendo uma ocupação que exige, e muito, atitude, compromisso e paciência. Educar crianças é uma vocação, não uma contingência. Aprende-se a educar educando; não há outra maneira. Nós, pais e educadores, somos chamados à reinvenção sempre, a toda hora. Cada filho é um, e o que cabe a um não necessariamente serve ao outro. Temos que estar atentos a cada um. É preciso conhecermos  nossos filhos e dar a cada um a dose certa de “remédios”. E isso não pode nem deve ser igual. Afinal, eles são diferentes! 
Somos de uma cultura recente de valores novos que não dão muito valor à arte de educar. Muitos de nós consideram aceitável que a Escola ou a Igreja se ocupem de educar os nossos filhos. Impossível! A busca do ideal de realização do que há de mais significativo em nossas vidas não pode depender de outros. A educação de nossos filhos é um trabalho pessoal e intransferível. Felizmente, a grande maioria dos pais assumem essa tarefa com alegria e compromisso. Inúmeros pais veem sua missão como sagrada e a abraçam com amor. Sei que há esforço de pessoas imaginativas que de tudo fazem para acompanharem os seus filhos. Que ótimo! Há muitos pais comprometidos e engajados na missão pessoal de tudo fazerem para que os seus filhos tenham a paz e a tranquilidade necessárias para que o processo de educação e amadurecimento das crianças aconteça naturalmente na família.
Com certeza somos sujeitos a grandes forças sociais e midiáticas que moldam as nossas vidas e as vidas de nossos filhos. Contudo, sei que temos o potencial para traçarmos os nossos caminhos. Precisamos de mais atenção e intencionalidade no cuidado da educação de nossas crianças. Para tanto, precisamos deixar que novas janelas se  abram  em nossas mentes para que tenhamos novos olhares sobre os nossos filhos. Lembre-se de que o mundo muda a toda hora e que nós também mudamos, ou deveríamos mudar! Pensar e agir sempre da mesma forma, mesmo que não mais seja conveniente o que estamos fazendo, é permanecer em um engano. É como deixar a vida no “piloto automático”. Serve para voo de cruzeiro, mas não para pouso e decolagens. E se, na vida, temos que pousar e decolar várias vezes, certamente teremos que estar aptos para os tantos malabarismos que fazemos para que os nossos filhos tenham aquilo de que mais necessitam: a segurança da família.
Myla e Jon Kabat – zinn escreveram a bela obra Nossos Filhos, Nossos Mestres. Eu li a 4ª edição desse livro, pela Editora Objetiva. Um dos capítulos que mais me chamou a atenção foi o intitulado O que é uma paternidade atenta?. Nele, a reflexão em foco foi: atender às necessidades dos filhos da maneira mais completa e menos egoísta se faz possível quando nós adotamos uma “atenção consciente” às verdadeiras necessidades deles. Portanto, estejamos atentos e assumamos a responsabilidade que é nossa de pai e de mãe. Quem educa o filho é a família. Escola garante escolarização e oferece oportunidades para que as habilidades e competências das crianças sejam trabalhadas, formando cidadãos conscientes e críticos. Educar de acordo com os preceitos éticos, valores morais e comportamentais cabe aos pais. É preciso que saibamos que não é verdade que deixar passar o tempo faz tudo se ajeitar. Também precisamos saber que transferir papeis não irá transformar nossos filhos em seres humanos melhores. 


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O que é importante para você?



Olhe adiante! Pense o que você quer para seus filhos daqui a 10, 15 anos. Qual você quer que seja a visão de mundo deles? Com que tipo de pessoa você quer que eles estejam se relacionando? Já imaginou também como estará a sua relação com eles? Se você deseja alguma coisa de boa para a vida deles e certamente deseja, comece agora projetando como será esse futuro deles. Ensine-lhes hoje o que quer que eles sejam no futuro. Se pensa que deverão ser gentis, então ensine hoje o que é gentileza. Se deseja que sejam adultos responsáveis, dê a eles hoje responsabilidade. Se os imagina felizes no casamento, ensine-os desde já a saber lidar com outras pessoas. Nossos filhos serão no futuro o que certamente ensinamos a eles no presente.
Ter visão a longo prazo para os filhos é muito importante. Com certeza queremos o melhor para cada um de nossos filhos. E isso nos faz perguntar: estamos planejando isso? Estamos deixando que as coisas aconteçam ou estamos educando para que no futuro eles sejam o que de fato desejamos?
Para ter certeza destas respostas, proponho um exercício. Cite três qualidades que você deseja que seus filhos tenham na fase adulta. Feito isso, imagine agora o que faria para que essas qualidades fossem desenvolvidas em seus filhos? Planejar exige traçar metas e controlar para que essas metas sejam atingidas. Esperar que as crianças cresçam naturalmente sem intervenções em suas práticas, no sentido de torná-las melhores socialmente e cumpridoras de obrigações em casa e na escola, não dá certo. Em toda minha experiência eu, como educador, tenho visto o que acontece com crianças que “se criaram por si” ou que não receberam orientações adequadas. Seus filhos precisam não só de uma atenção mas também de um relacionamento com você para que se tornem adultos felizes.
Frequentemente ouço as pessoas dizerem que não querem reproduzir o modelo “durão” de educação que receberam de seus pais. E por não quererem reproduzir um modelo, muitos pais não desenvolvem outro. Como ficamos? Crianças sem modelo de educação a seguir. Sem um norteador para o futuro e consequentemente sem a formação necessária. Precisamos de agir como pais que desejam para os seus filhos a segurança e a tranquilidade na fase adulta. Kevin Leman, autor do livro Transforme seu filho até sexta, editora Mundo Cristão, nos ensina em sua obra que bons pais não podem ser escravos das crianças e muito menos ser permissíveis quanto a condutas indelicadas e às exigências mimadas. Ele nos ensina também que temos que educar os nossos filhos para que eles desenvolvam disciplina, confiança e responsabilidade. Para que aprendam com a realidade e que tenham objetivos e metas na vida.
Você não precisa de ser tudo, ter tudo e oferecer tudo aos seus filhos. Você tem tudo o que é necessário para eles. Já percebeu o tanto que os seus filhos estão se esforçando para agradá-lo? Fazem isso por uma razão única: eles não suportam a ideia de que você não é feliz com eles. Por isso, demonstre essa felicidade, mostrando a eles o quanto os ama. Deixe escapar elogios e invista em dar segurança a eles. Nós, pais, temos todas as cartas do jogo nas mãos. As crianças não têm nada, exceto o que recebem de nós. Veja o quanto somos importantes! O que é importante para você? Educar vai se tornar mais fácil quando conseguirmos inserir nossos filhos na resposta a esta pergunta.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O sistema imunológico é o “cérebro do corpo”



A frase que dá título a este ensaio é do cientista Francisco Varela, da Escola Politécnica de Paris. Segundo ele, o corpo percebe a si mesmo reconhecendo o que faz parte dele e o que não faz. Por isso, possuímos células em nosso sistema imunológico que, reconhecendo a presença de células estranhas em nosso organismo, promovem um ataque para nos proteger do “invasor”, seja vírus, bactéria etc. Se não há esse reconhecimento e ataque, instala-se a doença.
Em 1974, uma descoberta na universidade de Rochester redesenhou o mapa fisiológico do corpo. O Psicólogo Robert Ader descobriu que o sistema imunológico, tal como o cérebro, era capaz de aprender. Com essa descoberta, cientistas puderam entender que emoção e corpo não eram entidades separadas, mas interligadas. Portanto, o nosso corpo sente quando as nossas emoções não estão organizadas. As emoções podem ser tóxicas para o nosso organismo, pois o sistema imunológico não reconhece, nessa desorganização, a ação de corpos estranhos e, consequentemente, não consegue combater essa autoagressão do próprio organismo. Mas, por que estou falando nisso? O que isso tem a ver com a vida educacional de meu filho? Pois é, tem a ver sim.
Têm sido crescentes entre crianças e adolescentes queixas de dores e quadro de sintomas, sem que, de fato, esteja instalada uma doença. É somatização. E isso, com certeza, pode estar sendo, uma denúncia inconsciente de que algo não está bem com o emocional dessa criança. Se não está bem emocionalmente, certamente teremos desencadeado problemas na aprendizagem e na relação interpessoal com professores e colegas.
O objetivo aqui não é de “terapeutizar” a questão posta, mas alertar aos familiares que vivemos em todo o mundo um momento em que os afazeres da vida nos têm tirado de casa e nos levado, em muitos casos, a afrouxarmos no cuidado emocional de nossos filhos. A busca por tudo que a mídia nos diz de ter e ser nos leva a focarmos em metas e objetivos que nos tiram a atenção àqueles que nos cercam. Por isso, torna-se necessária, e muito, essa reflexão: estou mesmo(a) atento(a) ao emocional de meus filhos? Como tenho agido com o afetivo de cada um? Eu tenho dado atenção necessária e carinho de qualidade a eles? Tenho sido recorrente nessa questão, pois tenho observado que muito tem crescido o número de alunos necessitando de mais carinho e mais cuidado dos pais.
Antoine de Saint-Exupéry, em seu magnífico livro O Pequeno Príncipe, nos ensina que é com o coração que se vê corretamente; o essencial é invisível aos olhos. Nós conhecemos a nós mesmos e ao outro através das emoções. Por isso mesmo é que me dirijo a você no sentido de compartilhar esta questão: somos sujeitos a todo tipo de dor se não estamos sendo ouvidos, compreendidos e seguros. Assim, o que temos que nos preocupar em garantir aos nossos filhos é a “segurança emocional”, que lhe dará a força para desenvolver uma autoestima elevada e, claro, todos os benefícios emocionais que ela garante.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A desconstrução da criança: o mito da maturidade precoce


Estamos em um tempo histórico, em que a criança está tendo muita visibilidade. Especialistas de diversas áreas do conhecimento teorizam a respeito da criança e da infância. Ora superprotegida, ora com imensos poderes, a criança tem sido também alvo de consumo, acesso a tecnologia, legislação e tudo o mais que faça com ela seja quase comparada a um adulto. Estamos assim, imersos em uma cultura que coloca a criança como um sujeito universal, embora convivamos com a separação entre o mundo infantil do mundo adulto. Paradoxalmente, mesmo sabendo da coexistência desses dois mundos, vivemos em um que exige da criança uma maturidade, que ela não pode apresentar.
Reconhecer e dar às crianças visibilidade não significa fazê-las virar heróis e muito menos levá-las ao mesmo tratamento que dispensamos aos adultos. A infância, primeiro estágio de evolução na vida humana, deve ser cuidada com atenção, mas não como sendo um “momento privilegiado” dessa evolução humana. O desenvolvimento humano é um processo que vai do nascimento à morte, e em cada momento desse desenvolvimento há necessidade de cuidados especiais às pessoas. Em todo esse processo, o ser humano está sujeito a conflitos, a necessidades biológicas e sociais. Portanto, cada período do desenvolvimento humano é essencial. Sendo a criança um ser de grande potencial de aprendizagem, cabe a nós, adultos, pais e educadores, oportunizar a ela condições sociais, culturais, ambientais e biológicas para que o seu desenvolvimento aconteça de forma natural e até mesmo prazerosa. Em condições de segurança emocional e conforto psíquico, o que as crianças necessitam é de tranquilidade para viverem o seu desenvolvimento.
A ansiedade do mundo adulto não pode contribuir para a desconstrução da infância. Os adultos interpretam que a potencialidade da criança e o seu futuro como adulto dependem do desenvolvimento de habilidades ainda na infância. Por isso mesmo, crianças da Educação Infantil têm sido “atropeladas” em seu desenvolvimento com uma enorme carga de responsabilidade que não condiz com a maturidade humana nessa etapa da evolução. Eu tenho visto crianças com agenda de adulto. Será que isso contribui mesmo para que a criança chegue com sucesso na fase adulta? Tenho visto tamanha exigência de performance às crianças muitas vezes estressante e exagerada. O sujeito infantil tem necessidade de aprendizagem e de relação sociocultural típico de uma fase e de sua maneira de se relacionar com o mundo a sua volta.
Nós, adultos, não podemos nos colocar como os intérpretes do mundo infantil. Na verdade, ele fala por ele mesmo. Ao interferirmos nesse mundo, a partir da visão e interlocução que temos dele, como adultos que somos, estaremos sim encurtando o tempo da infância. O que a criança necessita é de ter a oportunidade de exercer o seu pensamento sincrético que traduz e interpreta o mundo de seu jeito. Quando queremos que a nossa criança esteja cada vez mais construindo habilidades, estamos, na verdade, desconstruindo o mundo infantil. Ao desejarmos que crianças vivam como os adultos, estamos dificultando a vida da criança. Precisamos estar atentos a isso. É preciso reconhecer a criança como ser de alto potencial de aprendizagem e com capacidade de se relacionar com o meio, pois é isso que a torna tão especial. Mas não podemos privá-la da infância!

Referência: Dorneles, Leni Vieira. Infância que nos escapam. Petrópolis, Ed. Vozes, 2005.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Crianças que se tornam adultos bem-sucedidos



Pais e educadores de todo o mundo já têm um desejo: garantir que as crianças (filhos e alunos) se tornem adultos habilidosos e competentes. Há muitos anos, pais e educadores acreditavam que o adulto bem sucedido teria sido também uma criança de sucesso na infância. Para eles a correlação era direta: crianças com bom desempenho na escola certamente seriam adultos de sucesso. Será mesmo?
Nas últimas décadas, pesquisadores da neurociência, pedagogos e psicólogos vêm discordando que notas altas e Q.I elevado sejam indicadores de uma educação de qualidade e garantam que essa criança tenha sucesso na vida adulta. E isso nos faz perguntar “como podemos proporcionar uma educação de qualidade para as nossas crianças?”. O jornalista Paul Tough, autor do livro Uma questão de caráter, da Editora Rio de Janeiro, traz à luz um interessante indagação: Por que a curiosidade e a determinação podem ser mais importantes que a inteligência para uma educação de sucesso? É isso! O livro citado e traduzido para o português por Clóvis Marques tem revolucionado e muito essa discussão.
Os especialistas mais conectados com o mundo contemporâneo têm abraçado a ideia de que competências não cognitivas como autoestima, autoconfiança, responsabilidade e perseverança têm colaborado muito mais para o sucesso de uma pessoa adulta do que o quadro de competências que as pessoas carregam. A escola, em sua missão de preparar para a vida, tem que incorporar em seu currículo formal e disciplinar projetos que garantam ao educando a aprendizagem de estratégias que irão também desenvolver as suas habilidades emocionais. São as atividades diversas, muitas delas fora da sala de aula, que se ocupam de capacitar a inteligência emocional de nossas crianças. Infelizmente, algumas famílias mais conservadoras e ainda não conhecedoras dos desafios que os adultos das próximas décadas enfrentarão ainda acreditam que o papel da escola é só o de aplicar conhecimentos. O cognitivo é importante, mas o emocional é fundamental. Adultos emocionalmente pouco preparados não atingem o sucesso. E se o atingem, não conseguem lidar com ele. Aí está o novo desafio da família e da escola: formar a criança tanto no seu contexto cognitivo quanto no contexto emocional.  No SEB, nós estamos trabalhando para isso.
Em 2013, uma pesquisa foi realizada na fundação Ayrton Senna pelo Boston Conulting Group com mais de 3. 700 respondentes Professores e Diretores. Quase 70% dos depoimentos declararam que as principais competências a serem desenvolvidas na escola são socialização, autonomia, pensamento crítico e resolução dos problemas. Sabe por quê? Hoje, aprende-se conteúdo mais fora da escola do que nela. Informação rápida e de qualidade está à disposição de todos. Agora, as competências aqui relacionadas contribuirão para que os trampolins sociais e as desigualdades possam ser reduzidas e ultrapassadas com mais velocidade. Assim, o sucesso não parece depender somente do conhecimento. É preciso mais ferramentas para que a pessoa atinja o topo. Pense nisso, interiorize essa novidade e tenha certeza de que aqui na Escola estamos atentos a este novo olhar: ensinar o conhecimento, mas fomentar o desenvolvimento de uma inteligência emocional capaz de fazer com que as nossas crianças amadureçam preparadas. Por isso, em nossa proposta pedagógica todas as nossas atividades complementares e eventos são planejados com esse olhar.
Daniel Golenan, Psicólogo PHD por Havard e autor da obra Inteligência Emocional (Editora Objetiva), ensina-nos que o controle das emoções é fator essencial para o desenvolvimento da inteligência emocional e para o sucesso na vida. Dessa forma, como dissertei acima, não é só o raciocínio lógico e habilidades matemáticas que levarão as crianças a se tornarem adultos felizes e de sucesso. Muito pelo contrário. Só o conhecimento nada significa. Se não estamos preparados para perder, como iremos nos preparar para vencer? Só quer vencer quem experimentar a decepção da derrota. É preciso também desenvolvermos em nossas crianças a habilidade de entender outras pessoas. Saber ler o outro é fundamental. Desenvolver nas crianças a capacidade de negociação, solução de conflitos, liderança e sensibilidade social é imprescindível! Tudo isso é ensinar para a vida real. Portanto, que fique bem claro: pai e educador não podem focar só no ensino-aprendizagem de conteúdos curriculares. Afinal, nossos filhos e nossos alunos terão a vida inteira para aprender!
Pense nesse novo paradigma e saiba que educar é a arte de transformar crianças em pessoas felizes.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Crianças necessitam de viver em seu mundo infantil



Encontrar a criança, o seu lugar no discurso psicanalítico é para mim algo muito estimulante, já que vivo o mundo escolar diariamente, durante grande parte de meu dia e de minha vida. Estou lendo o livro Psicanálise com crianças, de Teresinha Costa, da Zahar Editora. A motivação para essa leitura vem de meu curso de formação em psicanálise. Atualmente, estudo o módulo denominado Psicanálise infantil. Estou muito envolvido, pois, como pai e educador, tenho aprendido muito, questionado bastante e, na verdade, venho refazendo alguns pensamentos em relação ao universo infantil.
Há correntes da Pedagogia e da Psicologia que defendem a crença de que uma criança é um ser feliz e sem conflitos. Esses estudiosos tinham suposto que os sofrimentos dos adultos resultam em encargos para as crianças. Mas acontece também o oposto disto. O que a psicanálise nos ensina é que muito do sofrimento humano na fase adulta e até na maturidade são repetições dos sofrimentos infantis. Portanto, o acompanhamento de nossas crianças é um compromisso sério que a Família e a Escola precisam firmar. Nós, educadores, cuidadores e pais, temos confiado a nós a missão de termos as nossas crianças, considerando-as como seres humanos, cuja felicidade futura depende muito de suas experiências na infância. É no mundo infantil que a criança se manifesta e se denuncia para os adultos. Assim, as crianças precisam de um mundo infantil seguro e íntegro. Um mundo cheio de afetividade e de brincadeiras saudáveis. Viver a infância plenamente oportuniza leveza e equilíbrio às crianças e as prepara para um mundo feliz.
Segundo Roselake, psicanalista infantil e especialista em comportamento humano, os pais devem fazer com que os filhos se interessem pelo universo infantil. É preciso fazer com que as crianças tenham a percepção de que os adultos também gostam do mundo infantil. Para tanto, os pais devem brincar com as crianças. É preciso também que sejam limitados aos pequenos os assuntos dos adultos. Não se trata de impedir a interação com o mundo adulto, mas de ensinar às crianças que existe idade para a compreensão das coisas do mundo. Crianças não necessitam de estarem expostas aos problemas do mundo adulto, por isso, procure se relacionar com a criança, incentivando-a a falar de si, da escola, dos amigos etc. Direcione a fala dela! Pais e adultos que vivem com crianças precisam fazê-las entender que há alguém na liderança. É preciso orientá-las e torná-las confiantes quanto ao rumo tomado.
Crianças inteligentes, espertas e independentes são motivos de muita alegria para os pais. Mas não se pode confundir essas virtudes com maturidade emocional. Acelerar o processo que faz com que os pequenos se tornem adultos mais precocemente é um equívoco. E isso vem ocorrendo principalmente com as crianças que vivem em um mundo mais adulto. Desenvolvimento precoce traz problemas futuros! Não viver a infância plenamente afasta a criança de sua essência e a torna um adulto sem inocência. Portanto, deixemos as nossas crianças viverem o mundo infantil. Não queiramos que cresçam fora de seu tempo. Não podemos esquecer que o ser criança é um ser singular com particularidades que a diferenciam de um adulto. Por isso mesmo, ela se expressa e se manifesta em um mundo que é seu e não dos adultos. Mergulhemos no mundo infantil e sejamos com as nossas crianças, criança também!


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O temperamento dos adultos e a relação entre o sucesso e o fracasso na vida das crianças


A maneira como os adultos se expressam na lida com a criança revela os sentimentos que eles têm para com ela. Segundo o psicólogo educacional Haim Ginott, as palavras dos adultos têm muito poder. Para as crianças, os adultos sabem de tudo. Estão preparados para os desafios da vida e, por isso mesmo, são referência. A criança é capaz de fazer qualquer coisa que um adulto oriente e, com certeza, acreditar em tudo o que ele fala.
Dependendo do que o adulto disser a uma criança, sua autoestima será afetada. Nesse momento, estamos traçando o seu destino: vencedor ou perdedor? Por isso, ao nos dirigirmos às crianças, precisamos estar atentos a todo esse perigo. Nós, pais e educadores, somos os adultos que convivemos com as crianças e, por isso, dirijo-me a vocês: estamos realmente atentos à forma como nos dirigimos às nossas crianças? Estamos cientes da força de nossa palavra? Educar, corrigir e orientar não são sinônimos de reprimir, ofender e humilhar. Podemos ser firmes e educativos com afeto e segurança. Mostrar irritação não significa que tenhamos que ser deselegantes com os nossos filhos e alunos.


Para que nossas crianças e jovens se livrem da bagagem emocional negativa, precisamos rever o nosso temperamento, muitas vezes impulsivo. Precisamos refletir sobre as nossas ações e expressar ideias positivas e construtivas. Serão bem-vindas novas atitudes e principalmente mudança de comportamento mental com as nossas crianças. É preciso que estejamos abertos ao diálogo, considerando que todos nós somos seres humanos sujeitos a erros e acertos e que também somos produto de relações que nem sempre foram bem resolvidas. Muitas vezes as nossas frustrações e decepções afloram em um momento de raiva e esquecemos que na outra ponta há uma criança desprotegida, indefesa e que, por isso mesmo, necessita de nossa compreensão.
Temos que pensar diferente. É preciso que nós assumamos a responsabilidade e o compromisso de fazer melhor. Como bem disse Tania D. Queiroz em sua obra Educar é uma lição de amor, “Não passe a mão na cabeça de seus filhos, mas tampouco brigue ou discuta antes de verificar a verdade dos fatos com imparcialidade... não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o que acontece no nosso mundo, na escola e em nosso lar”. Lendo esse livro, fui convidado a uma bela reflexão sobre o quanto nós, adultos, influenciamos positivamente e negativamente as nossas crianças. Aprendi que muito do que falamos a eles irá ser a formatação da personalidade deles. Aí me vi como filho e como pai. Lembrei-me de meu pai e percebi o quanto tenho dele impresso em mim.
Já pensou nisso? Pense, reflita e imprima maravilhas na vida de seus filhos.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Nós temos uma vida aqui


“Professor, os meus netos todos estudaram ou estudam aqui. Nós temos uma vida aqui”. Foi o comentário que ouvi de uma senhora de largo sorriso que se aproximou de mim, durante um evento que fizemos no Colégio em comemoração ao dia dos avós.
Sinceramente fui tocado pela emoção. Senti-me parte da vida dessa família e, ao mesmo tempo, pensei em minha enorme responsabilidade. Em minha mente passou, em uma fração de segundo, o tanto que a nossa escola, os nossos educadores e colaboradores têm de importância. Senti a felicidade de ter tido o reconhecimento de nosso trabalho, mas também, mesmo que não tenha sido essa a intenção daquela doce senhora, o meu senso de responsabilidade ficou ainda mais aguçado.
A cada dia, nós, Escola, precisamos nos lembrar de nosso importante papel. Eu estou tão certo disso que, mesmo após tantos anos passados em escolas, sei que precisamos nos preparar cada vez mais. Precisamos acompanhar a evolução dos tempos, mas nunca esquecer nossa missão de educar e de formar pessoas. Tarefa difícil, mas não impossível. Caminhada longa, mas em uma via pavimentada com compromisso, ética, responsabilidade e amor. Sabemos em que somos fortes e onde estão as nossas fraquezas.  Corrigimos ali e algum desacerto surge acolá. É assim mesmo: somos humanos, trabalhamos o tempo todo com pessoas.
Tudo o que incomoda as pessoas acaba sendo o nosso instrumento de trabalho, pois trabalhamos com formação, disciplina, método e avaliação do outro. Ninguém quer ser disciplinado, orientado e cobrado. Esse é o nosso papel. Não se educa sem essas ferramentas. Vivemos com um universo enorme de pessoas com olhares e pensamentos diferentes. Harmonizar é nosso papel. Por isso, eu disse que a caminhada é difícil. Contudo, um momento como esse que vivi com essa senhora em apenas cinco minutos de um dia, perdido em meio a toda a trajetória de nossa experiência, é a compensação de tudo que realizamos.
Quando, em nosso breve diálogo, essa avó disse que a família dela tinha uma vida aqui em nossa escola, eu também pensei o tanto de nossas vidas que está depositado aqui nesse mundo de formar pessoas. Todos os dias, por anos e anos, nós, educadores e colaboradores, iniciamos nossa jornada com um “Bom dia!”. Ao término de nosso trabalho, nos dirigimos aos colegas e comunidade com o “Boa noite!”. Passamos um dia todo em nossa missão. Tem que valer a pena para a alma, para a vida!
Essa breve reflexão, motivada por uma abordagem generosa e gentil de uma avó de alunos de nossa escola, me levou a compartilhar com você o nosso compromisso de educar de verdade. Reafirmo que isso vai além do ensinar conteúdos. Temos um projeto grandioso de uma magnitude pedagógica e de uma preocupação muito grande com a formação de pessoas. Estamos empenhados em promover uma escola cidadã, crítica, ética e solidária. Queremos que nossas crianças se desenvolvam em um ambiente rico em diversidades e múltiplo em possibilidades para os nossos alunos se realizarem como pessoas em suas dimensões.
Por isso, aqui no SEB Maceió, o esporte, o teatro, o Centro de Línguas, as atividades extras, o Voluntariado Educativo, os diversos eventos, a Eucaristia, os desafios os quais apresentamos diariamente aos nossos alunos são parte de um todo cuja culminância é o desenvolvimento cognitivo, afetivo e físico de nossas crianças e adolescentes. No final de tudo, lá na frente, estaremos juntos colhendo frutos saudáveis e doces. Confiem em nós!


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Meu filho não mente



“Professor, o meu filho não mente!”. É o que costumo ouvir em vários atendimentos que faço a pais. Escuto respeitosamente, contudo tenho outro entendimento. Na verdade, à luz da Psicologia, sabemos que as crianças mentem sim, e por duas razões: por desejo de realização ou por medo. No desejo de realização, a criança cria situações positivas para ela. Por exemplo: chega em casa dizendo que marcou três gols na aula de Futsal, quando na verdade isso não aconteceu. Ela está buscando autoafirmação e também o elogio dos pais. No segundo caso, por medo, ela mente sobre algo para fugir do castigo ou da repreensão. Diz que não foi ela e culpa os outros. De fato, a maioria das crianças, e mesmo os adolescentes, mentem por medo.
Nós, pais e educadores, precisamos entender que a mentira existe, e quando enxergarmos que ela está instalada, devemos mostrar às nossas crianças que elas não estão agindo de forma correta. É preciso fazê-las entender que mentir, esconder a verdade, não é um valor ético aceitável. Precisamos ensinar que a mentira compromete a confiança e pode até mesmo prejudicar outras pessoas. Enxergar a mentira nos filhos e fazê-los ver que não estão certos é a melhor forma de educá-los para a vida. É muito normal, diante de uma situação de “aperto”, a mentira ser a janela de escape. Adultos costumam agir assim também e isso não é ético. Nós, pais e educadores, precisamos muito estar atentos a esse comportamento em nós mesmos, pois as mentiras, mesmo que inocentes, são mentiras.
Muitas vezes, na vida real, a mentira tem sido utilizada. Na verdade ela convive conosco o tempo todo. Mas (observem bem!), repudiamos a mentira sempre. Criticamos os que mentem, achamos que a “mentira tem pernas curtas” e para nós, mesmo que seja dolorosa, queremos a verdade sempre. Por isso mesmo, aconselho a não aceitar a mentira de seus filhos. Punir, castigar e humilhar? Mil vezes digo não! O que temos que fazer sempre com as nossas crianças é ensiná-las. Se desejarmos mesmo um mundo mais ético, uma sociedade mais digna e um lugar bom para os nossos filhos, então não podemos permitir que eles cresçam na mentira.
Ninguém nasce sabendo mentir. Esse é um comportamento que adquirimos a partir da convivência com outras pessoas. Claro que não me refiro aqui às “fantasias infantis”. Isso é outra coisa que um dia tratarei em um outro ensaio. Na fase das fantasias, a mentira ocupa o lugar da “imaginação”. Tal fato é parte do processo evolutivo e principalmente de aprendizagem. As crianças estão “viajando” na imaginação. Estão se conhecendo e conhecendo o mundo. A fase da fantasia vai até por volta dos 7 anos, podendo é claro se estender.
Voltando à questão... quando a criança mente para esconder algo ou para se promover, nós, pais e educadores, temos que estar atentos para atuarmos no sentido de corrigirmos esse desvio de comportamento. Se faz necessário aqui ouvir a criança e não criticá-la ou puni-la, apenas deixá-la à vontade para falar a verdade e sentir que falar a verdade não pode gerar punição. Essa atitude gera um clima favorável à confiança e à segurança, o que aumenta a chance de a criança sempre dizer a verdade. A mentira pode ser, então, uma forma encontrada inconscientemente pela criança de denunciar que ninguém sabe de fato o que ela faz. Certamente essa sensação é quase uma permissão para que ela minta. Portanto, o diálogo franco, a liberdade da fala da criança e a escuta dos pais e educadores são essenciais para que a criança perceba que não é necessário mentir para resolver os problemas que lhe são postos. Caso não funcione, recorra a atitudes mais disciplinadoras. Se funcionou com você, na medida certa, acontecerá com seus filhos.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Entrevista


Entrevista para a TV Maceió que fala sobre a importância da Educação Infantil para a formação das pessoas, do Projeto Pedagógico Reggio Emilia entre outros assuntos.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu educo os meus filhos com culpa?



Já analisamos muita coisa, já compartilhamos muitas experiências. Eu me expus, me despi emocionalmente para vocês, no que tange a minha experiência de pai e educador. Mas ainda falta discutirmos uma questão muito complicada, que é o sentimento de culpa que carregamos conosco. Não quero discuti-lo à luz da Psicanálise, não quero correr o risco de tornar-me enfadonho. Quero como pai e educador me reportar a vocês a partir de um ponto prático. Na verdade, quero que paremos um segundo na leitura deste artigo para que nos perguntemos isto: Eu já me culpei em algum momento na relação com meus filhos?
Imagino que sim. Muitas vezes, pressionados pela “psicologização” de nossa sociedade, em algum momento (ou até em vários!) a culpa por agir diferente do que andam convencionando por aí tenha lhes deixado(a) constrangido.
E quando a culpa se instala, fazemos mil promessas.
Será que erramos mesmo na hora de um corretivo disciplinar que damos aos filhos? Será que temos sempre que estar alinhados a uma “padronização comportamental”? Temos mesmo que agir, na educação de nossos filhos, exatamente como têm agido nossos amigos com os filhos deles? Temos não! Temos é que educar com amor, com razão e com autoridade, ora essa! Agora devemos colocar as crianças no centro de tudo? Elas têm sempre prioridades e deve ser tudo como dita um certo “psicologismo social pequeno-burguês”? Claro que não!
O sentimento de culpa abre a janela da insegurança e aí o medo de estar errando nos leva a sensação de que precisamos ceder sempre. “Tadinho” é o que vem a nossa mente. O “tadinho” é a chave do “Então tá. Pode sim”. Isso tem contribuído sabe para que? Estamos nos tornando reféns de nossos filhos. Eles é que estão se impondo e tendo autoridade em casa. Inversão de papéis? Cuidado com isso, pois podemos estar perdendo nossas crianças, ao permitirmos que elas cresçam sem limites, achando que tudo tem que ser para ela e do jeito dela. Sabem o que gera isso? Conflito na escola, no condomínio... E, depois que crescem, os conflitos acontecerão também no trânsito, no trabalho, no casamento. Não podemos nos conformar com isso nem com a ideia de que “é assim mesmo, tudo é normal, o mundo hoje é assim”. Se é, é porque estamos deixando que assim seja. Estamos autorizando a negligência na educação dos filhos para que não tenhamos culpa.
As mães que trabalham costumam sentir mais culpa, contudo entendo que é certo vocês trabalharem, exercerem a sua profissão e contribuírem na renda familiar. Há algo de errado aí? Claro que não! Não quero aqui entrar na questão do trabalho feminino, apenas deixar claro que ele é uma realidade, e que o mercado está para vocês, mães, e que tudo deve ser acomodado no sentido de vocês se permitirem se realizar. Se não for assim, terão culpa também: a culpa de não terem se construído como pessoa. Portanto, tudo certo. Trabalhem, eduquem, disciplinem, realizem-se e digam: “o comando é meu!”. Sejam seguras e seus filhos entenderão.
Não sintam culpa quando tiverem que corrigir, orientar, educar e mostrar o que é certo na vida. Suas experiências é um arsenal que os filhos precisarão para a vida. Sei que é difícil educar filhos hoje sem que haja culpa. Contudo, a culpa será muito maior quanto mais agirmos por influências de teorias com que não concordamos. Sejam o modelo de pai e de mãe que desejam ser. Não tenham medo de usar tudo o que aprenderam com os seus pais. Se a culpa vier, vejam quem a trouxe, mas não tentem mudar o curso das coisas. Seus filhos, lá na frente, saberão que agiram por amor. Afinal, não se erra quando se quer acertar de verdade e por agir com amor e responsabilidade.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Educar os filhos para a felicidade é educar com a alma


Tive, em meu relacionamento com meus pais, momentos maravilhosos e outros que não foram lá grandes coisas. Lembro-me de ter tido pouco contato com meu pai: ele trabalhava muito e quando estava em casa, gostava muito de “ficar quieto”, no “canto dele”. Por isso mesmo, a relação com a minha mãe foi mais intensa. Tudo era com ela. E ela sabia bem desempenhar o papel de esteio na família. Lembro-me também de que o excesso de exigências de meu pai muitas vezes me deixou inseguro. Minha adolescência foi difícil, pois meu pai (sempre querendo o meu bem, disso não tenho a menor dúvida!) exagerou na imposição de um modelo de rapaz que ele idealizava para mim.
Tenho procurado, ainda hoje, trabalhar em profundidade todas as experiências vividas. O que foi bom e o que foi ruim marcaram a minha existência e deixaram marcas em minha formação. Mas, por que estou tratando disso com você? Simplesmente por desejar chamá-lo a uma reflexão: você tem estado mais tempo com o seu filho? Você, pai/mãe tem buscado uma relação de comunhão com seus filhos? O importante é percebermos que estamos em um contato saudável com os nossos filhos. O tempo de vermos isso é agora, quando ainda estão conosco. Quando os filhos crescem e vão embora de nossa casa, talvez já não seja a melhor hora para estabelecermos essa comunhão com eles. Quando partem para a vida deles, levam na bagagem da vida tudo o que a eles legamos. Se for segurança, autoestima elevada e competência, é o que levarão. O contrário disso também estará com eles, infelizmente. A hora de ter com seus filhos uma relação de confiança, amor e segurança é agora. Por isso, eduque com a alma!
Educar com alma exige conexão dos pais com os filhos. A melhor maneira de passar mensagens efetivas para uma criança é criando uma conexão com ela. Os pais precisam entender os argumentos dos filhos e, para tanto, se faz necessário o diálogo contínuo. E isso exige muita confiança! Quando os filhos sentem que confiamos neles, a autoconfiança se desenvolve imediatamente. Confie em seus filhos. Sem isso será impossível educar com alma. Garanta liberdade aos seus filhos. Precisam experimentar, conhecer, comparar, descobrir. Sufocá-los não contribuem para que sejam felizes. Sem liberdade, ninguém descobre seu verdadeiro caminho. Ajude seu filho a descobrir a sua vocação e ajude-o a realizar o seu desejo. Respeite a escolha deles, sabendo que talvez não seja para sempre. Eles mudam de opinião. O que vale aqui é o incentivo a uma escolha. A vida das pessoas que fazem escolhas é mais objetiva. Respeite a essência de pessoa que seu filho é. Ele é um ser vivo para o mundo. Eu demorei, mas aprendi: nossos filhos são, cada um, um ser independente; eles existem  em si mesmos  e não por mim, mesmo que eu tenha dado a eles a vida.
Pais e mães têm muito o que ensinar aos filhos. As crianças esperam esses ensinamentos e necessitam deles para a vida. Para tanto, precisamos evoluir. É fundamental aceitar que o mundo mudou e irá continuar mudando e que a lógica de meu mundo não é a do mundo de meus filhos. Estamos juntos neste tempo e neste espaço, mas existe um enorme choque de gerações entre nós, pais e filhos. Precisamos acompanhar as evoluções e ter a consciência de que educamos para o mundo.

Estamos juntos! Peço a Deus forças para ajudá-los na formação de nossas crianças. Educador é pai e mãe, pois também educa com a alma.